31.8.09

Renasceram as flores

Tinham passado três anos. Volta e meia, o vulto - aquele vulto de feições ainda sombrias - passava na sepultura. Já não deixava flores; limitava-se a admirar as flores de há três anos. As mesmas flores que ainda gritavam de vergonha "não leves flores à minha sepultura". Passaram-se três anos e nenhum deles se apercebeu que estavam exactamente na mesma situação: um não estava morto e o outro não estava vivo. Passaram-se três anos e continuavam os dois a viver e a remoer as mesmas memórias de sempre. Os dois na mesma situação: um, ainda não completamente vivo; o outro, ainda não completamente morto. Para além dos três anos em que estavam os dois nessa mesma situação, restavam, ainda, todos os anos das duas vidas ou todos os anos das duas mortes em que estiveram os dois na mesma situação. Passaram-se três anos. E, de repente, a lua brilhou mais intensamente do que o sol de todos os outros anos das suas vidas ou do que o sol de todos os outros anos das suas mortes. Estavam ali, os dois, e perceberam que aquelas eram as suas vidas, mesmo depois de mortos que estavam ainda bem vivos. Que, para sempre, haveriam de sentir o mesmo. Que, para sempre, estariam juntos em todos os milhares de sóis e de luas e de nuvens e de dias e de noites e de ares que os separavam. E, no entanto, sabiam que, para sempre, estariam juntos. E, no entanto, sabiam que, para sempre, estariam juntos. Foram precisos três anos. Foram precisos três anos.

22.8.09

sobre mal-entendidos

Os mal-entendidos são uma das possiveis desculpas do pé na poça que não se quer molhado e que se tenta secar...

13.8.09

A new start...

Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day. Every day is a better day. Everyday is a 'non-better' day.

19.6.09

Fora

Era Outono outra vez, daqueles em que as folhas encharcadas de castanho mudam de cor conforme as árvores que as amadurecem. Tinhas-me ligado, mas não querias que fosse ter contigo. Estavas mal e não querias que eu te visse com os meus olhos que te viam. Era Outono e, a cada folha que caía, tropeçava trôpego um passo na tua direcção. Cheguei a um passo formigueiro de ti, mas não me quiseste ver com os meus olhos que te viam. E, no entanto, cheguei suficientemente perto de ti antes que caíssem todas as folhas encharcadas de castanho das árvores de Outono. E deixei-me ficar. Não te vi com os meus olhos que te viam, mas mergulhei os meus dedos dos pés na terra que os teus pés mascavam. Foi quando conheci a tua terra e a tratei como se fosse minha e ela passou a ser minha. Deixei-me ficar ali, parado, a ver os meus dedos dos pés, pequenos e frágeis, enterrarem-se pela chuva adentro, tão poderosa que transformava o pó em terra molhada. Esses pés, ainda pequenos e frágeis, aterravam ao chão o meu corpo pequenino, mais infinitamente pequenino do que os outros corpos dos rapazes pequeninos da minha idade. Nessa tua terra, que passou a ser minha, todas as árvores, todas as folhas, todos os Outonos encharcados de outras cores passaram a ter um cheiro que era só o da tua terra, o da minha nova terra. Todas as árvores, todas as folhas, todos os Outonos emanavam um fresco de estação que, sem que o soubesses, era o teu. E hoje, como ontem, como há muito desde que te pedi que me fugisses, já não te vejo com os meus olhos que te vêem, já não te ouço de ouvidos ensurdecidos de tanto ouvir a tua voz muda, muda. Já não te aperto a mão de textura de Outono que é só tua. Mas sinto-te quando me refujo na terra que é tua e que deixou de ser também minha porque me fugiu terramotamente de debaixo dos pés. Hoje choveu. Senti-te. E eu chorei. Da tristeza da terra do pó molhado da chuva quente, de saudades da terra que me ia perder, de felicidade porque afinal já não me lembrava do cheiro da chuva quente do Verão e da Primavera e do Inverno e do Outono e de todas as outras estações. Hoje senti saudades arrítmicas da terra que é minha porque a pisei um dia quando era só tua, lá tão longe, num sótão poeirento da minha memória esguia. E eu chorei. Porque me esqueci que também chove, que ainda chove, que já tinha tido uma terra minha, que a chuva quente na terra molhada cheira. Porque me tinha esquecido de estar à chuva e do cheiro da terra molhada, do cheiro da minha terra molhada que afinal era a tua.

- Publicado no catálogo da exposição Zero Atlântico, de Júlio Dolbeth (em Luanda, Angola, Maio de 2009)

Dentro

Ainda havia de nascer, mas lembro-me como se fosse hoje daquele quarto, grande como todos os quartos grandes, que não era meu e me pertencia. Ainda havia de nascer, mas aquele quarto já era meu. Contigo. Já tu tinhas crescido e eu ainda haveria de nascer, era nesse quarto que juntávamos as nossas malas riscadas e cobertas do cansaço da viagem a um canto e nos deixávamos levar pelo frio que aquecia a noite. E falávamos palavras que percorriam uma atrás de outra atrás de outra atrás de outra as paredes e as cortinas e cada uma das rachadelas no tecto branco de cal quase vitoriana do quarto que haveria de ser meu. E ríamos. E eu ficava no meu canto, a admirar a tua perfeição, e a desejar ser como tu, naquele quarto grande, quando fosse grande. Ainda haveria de nascer mas, nas rugas vincadas nas minhas mãos quando apertava as tuas, já era mais velho do que tu. E admirava-te como se admira a perfeição. E a perfeição eras tu naquele instante e em todos os instantes.

Passou-se um ano. E outro ano. Passaram-se todos os anos que haveriam de passar até que eu nascesse. E eu nasci. E morri-te. Era noite. E estava frio. E eu estava mais frio do que a noite porque te tinha morrido. Tão frio que a lágrima, ao teimar soltar-se, deslizou uns breves segundos de distância e congelou antes de se despenhar na minha face de rasgo corado de frio.

E eu, lá no fundo da minha morte, pedi-te que não levasses flores à minha sepultura. Mas não cumpriste a tua promessa e levaste flores à minha sepultura. E insististe e levaste flores à minha sepultura. E mais flores. E mais flores. E a cada flor, eu visitava o meu quarto, o quarto que era nosso ainda eu não era nascido. E ouvia as nossas palavras a percorrer as paredes e as rachas do tecto branco de cal quase vitoriana. E ouvia-te o segredo. Sempre te ouvia o segredo. E ríamos. E eu morria-te. E pedia-te outra e outra vez que não levasses flores à minha sepultura. Até que me morreste. E eu tentei esquecer o nosso quarto de cheiro a lã e paredes e rachadelas.

Hoje estava frio. E senti saudades do calor da noite fria do nosso quarto. Visitei-o. Não te esperava, mas estavas lá. E eu estava lá. Não falámos. As palavras não percorreram as paredes e as rachadelas de imaculado já nada vitoriano, e que me pertenciam antes de eu sequer nascer, e que eram as nossas paredes e as nossas rachadelas. Não nos rimos. Olhámo-nos. Vimos uma nesga de gota solene solidificar-se nos nossos olhos. Éramos fantasmas corados de vergonha naquele quarto que ainda cheirava a lã e a cal e a rachadelas de tecto quase vitoriano. Não passámos de meras memórias que duvidávamos terem existido num passado que já não era o nosso. Morremo-nos. Mas faríamos parte um do outro para sempre. Naquele quarto de cheiro a lã.

- Publicado no catálogo da exposição Zero Atlântico, de Júlio Dolbeth (em Luanda, Angola, Maio de 2009)

18.5.09

Zero Atlântico

Mais uma contribuição para uma exposição de ilustração de um dos mais prometedores artistas contemporâneos portugueses. O cartaz da exposição está aqui e os textos estarão brevemente no blog das pedras normais.