19.6.09

Fora

Era Outono outra vez, daqueles em que as folhas encharcadas de castanho mudam de cor conforme as árvores que as amadurecem. Tinhas-me ligado, mas não querias que fosse ter contigo. Estavas mal e não querias que eu te visse com os meus olhos que te viam. Era Outono e, a cada folha que caía, tropeçava trôpego um passo na tua direcção. Cheguei a um passo formigueiro de ti, mas não me quiseste ver com os meus olhos que te viam. E, no entanto, cheguei suficientemente perto de ti antes que caíssem todas as folhas encharcadas de castanho das árvores de Outono. E deixei-me ficar. Não te vi com os meus olhos que te viam, mas mergulhei os meus dedos dos pés na terra que os teus pés mascavam. Foi quando conheci a tua terra e a tratei como se fosse minha e ela passou a ser minha. Deixei-me ficar ali, parado, a ver os meus dedos dos pés, pequenos e frágeis, enterrarem-se pela chuva adentro, tão poderosa que transformava o pó em terra molhada. Esses pés, ainda pequenos e frágeis, aterravam ao chão o meu corpo pequenino, mais infinitamente pequenino do que os outros corpos dos rapazes pequeninos da minha idade. Nessa tua terra, que passou a ser minha, todas as árvores, todas as folhas, todos os Outonos encharcados de outras cores passaram a ter um cheiro que era só o da tua terra, o da minha nova terra. Todas as árvores, todas as folhas, todos os Outonos emanavam um fresco de estação que, sem que o soubesses, era o teu. E hoje, como ontem, como há muito desde que te pedi que me fugisses, já não te vejo com os meus olhos que te vêem, já não te ouço de ouvidos ensurdecidos de tanto ouvir a tua voz muda, muda. Já não te aperto a mão de textura de Outono que é só tua. Mas sinto-te quando me refujo na terra que é tua e que deixou de ser também minha porque me fugiu terramotamente de debaixo dos pés. Hoje choveu. Senti-te. E eu chorei. Da tristeza da terra do pó molhado da chuva quente, de saudades da terra que me ia perder, de felicidade porque afinal já não me lembrava do cheiro da chuva quente do Verão e da Primavera e do Inverno e do Outono e de todas as outras estações. Hoje senti saudades arrítmicas da terra que é minha porque a pisei um dia quando era só tua, lá tão longe, num sótão poeirento da minha memória esguia. E eu chorei. Porque me esqueci que também chove, que ainda chove, que já tinha tido uma terra minha, que a chuva quente na terra molhada cheira. Porque me tinha esquecido de estar à chuva e do cheiro da terra molhada, do cheiro da minha terra molhada que afinal era a tua.

- Publicado no catálogo da exposição Zero Atlântico, de Júlio Dolbeth (em Luanda, Angola, Maio de 2009)

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