31.8.09
Renasceram as flores
Tinham passado três anos. Volta e meia, o vulto - aquele vulto de feições ainda sombrias - passava na sepultura. Já não deixava flores; limitava-se a admirar as flores de há três anos. As mesmas flores que ainda gritavam de vergonha "não leves flores à minha sepultura". Passaram-se três anos e nenhum deles se apercebeu que estavam exactamente na mesma situação: um não estava morto e o outro não estava vivo. Passaram-se três anos e continuavam os dois a viver e a remoer as mesmas memórias de sempre. Os dois na mesma situação: um, ainda não completamente vivo; o outro, ainda não completamente morto. Para além dos três anos em que estavam os dois nessa mesma situação, restavam, ainda, todos os anos das duas vidas ou todos os anos das duas mortes em que estiveram os dois na mesma situação. Passaram-se três anos. E, de repente, a lua brilhou mais intensamente do que o sol de todos os outros anos das suas vidas ou do que o sol de todos os outros anos das suas mortes. Estavam ali, os dois, e perceberam que aquelas eram as suas vidas, mesmo depois de mortos que estavam ainda bem vivos. Que, para sempre, haveriam de sentir o mesmo. Que, para sempre, estariam juntos em todos os milhares de sóis e de luas e de nuvens e de dias e de noites e de ares que os separavam. E, no entanto, sabiam que, para sempre, estariam juntos. E, no entanto, sabiam que, para sempre, estariam juntos. Foram precisos três anos. Foram precisos três anos.
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